Este blog tem por objetivo agregar referências e informações sobre a questão do Lixo Eletrônico no Brasil e no mundo. Partimos de um estudo sobre o assunto (disponível aqui) e queremos incentivar conversações relacionadas. Se quiser colaborar, entre em contato. Mais informações sobre este site.

O ciclo do Lixo Eletrônico - 1. Produção e consumo

imagem de kla4067 encontrada no flickr -http://flickr.com/photos/84263554@N00/327787020/A produção e o consumo de eletrônicos são elementos totalmente interdependentes. A indústria, com forte apoio da mídia (não só a imprensa especializada em 'informática', mas também a imprensa de variedades e em grande medida o entretenimento), se esforça constantemente em criar uma ilusão de obsolescência, lançando periodicamente novos equipamentos com inovação incremental - aquelas poucas novidades que vêm devagar, um pouquinho em cada nova versão. Já fazem alguns anos que os computadores novos não trazem mais do que versões um pouco mais rápidas de suas versões anteriores. Por outro lado, a indústria trabalha também com o estímulo a comportamentos condicionados e objetos de desejo que, na visão distorcida e irresponsável do grande marketing, aquecem a economia ao incentivar o consumo (e, adiciono eu, o consumismo). Assim, conseguem cobrir toda a gama de adoção de equipamentos.

Aquelas pessoas que dão mais valor a estabilidade e segurança defrontam-se com a situação de que seus computadores precisam de software mais recente, que não roda com o sistema operacional desatualizado. O sistema operacional novo precisa de mais memória, velocidade, armazenamento, o que for. Para isso, precisam comprar um computador novo. Como não sabem (e os fabricantes não fazem questão de informar) que existem muitos usos alternativos mesmo para computadores de dez anos atrás, acabam por guardá-los em algum armário ou se desfazer deles. Não percebem que qualquer computador é um artefato que condensa uma grande quantidade de conhecimento, e aqui não estou falando só da quantidade de informação que ele armazena: cada peça de um computador é um sistema complexo de cálculos e armazenamento, e o conhecimento aplicado no desenvolvimento e fabricação de cada uma dessas peças deveria nos levar a pensar duas vezes antes de simplesmente descartá-la.

No outro lado do espectro de consumo, as pessoas que não se importam com estabilidade mas dão importância à novidade e à descoberta se vêem em um mundo de novas funcionalidades e novos usos em potencial que hoje já é inapreensível: pouca gente consegue saber todos os usos possíveis para um computador ou um celular. Eu me lembro que não mais do que quinze anos atrás, muita gente já tinha aparelhos de videocassete que tinham um monte de funções para agendar gravações, mas ninguém sabia usar. Hoje em dia os videocassetes são peça de museu, mas essa condição se espalhou para diversos outros aparelhos. Conheço muita gente que até hoje não consegue nem enviar um SMS, mas tem telefones celulares com câmera, MP3, rádio, wi-fi e outras coisas. Aquelas poucas pessoas que sabem usar tudo isso tampouco se satisfazem: é só aparecer um aparelho que tenha uma função a mais (hoje em dia é o multi-touch ou o 3G) e já se desfazem dos "antigos". Isso tem nome: obsessão ou compulsão.

Em todo o processo de fabricação de qualquer eletrônico, além de incorrer em comportamento levemente antiético ao estimular o desejo desenfreado por consumir cada vez mais, muitas empresas adotam também comportamento explicitamente predatório: a extração de matérias-primas e a produção industrial de eletrônicos frequentemente fazem uso de mão de obra precária, não levam em conta os impactos social e ambiental, e produzem uma grande quantidade de resíduos tóxicos. Muitas empresas têm plena consciência disso tudo e acreditam, como já é típico, que fechar os olhos elimina os problemas. Isso não é verdade. Como temos tentado mostrar neste blog, a situação do lixo eletrônico está totalmente desequilibrada: a quantidade de descarte produzido a cada mês supera em muito a capacidade de absorção e reciclagem do sistema produtivo.

E o que pode ser feito em relação à produção e ao  consumo de eletrônicos?

1.1. Reduzir, com consumo consciente. É notório que a maneira mais efetiva de sensibilizar uma grande corporação é mexer na única coisa que realmente importa para ela: o bolso. Ficar atento às práticas dos fabricantes de eletrônicos, consultar referências como o Guia de Eletrônicos Verdes do Greenpeace, e evitar ao máximo as empresas que fazem uso de práticas questionáveis são um começo. Sim, isso pode ser complicado: muitas vezes, aquela característica específica que a gente quer só é feita por fabricantes duvidosos. Em outros casos, os produtos mais corretos em termos sociais e ambientais são mais caros. É verdade, e não só no caso dos eletrônicos: produzir com responsabilidade custa mais. Aqueles produtos mais baratos muitas vezes são resultado de um processo em que crianças ou idosos trabalham doze horas por dia, recebendo em um mês menos de um terço do que seria um salário mínimo no Brasil. Para você pagar menos, um monte de gente foi explorada. Pense muito bem antes de comprar qualquer equipamento: comprando de um fabricante diferente, você pode estar contribuindo para que menos pessoas sofram, para que haja menos poluição no mundo e para ter certeza de que, no fim da vida útil do seu equipamento, ele seja devidamente reciclado. Você pode pensar que a decisão de uma pessoa não faz diferença, mas se todos ficarem esperando ao invés de fazer alguma coisa, nada vai mudar.

Leia mais sobre o impacto do ciclo produtivo de eletrônicos:

1.2. Reutilizar os equipamentos para estender sua vida útil. Qualquer equipamento eletrônico, principalmente aqueles que têm um alto nível de processamento de informação como computadores, abriga uma grande quantidade de usos não explorados. Se você, como a grande maioria das pessoas, usa seu computador para acessar a internet, editar textos e imagens e escutar músicas, é bastante provável que esteja desperdiçando capacidade de processamento: o seu computador fabricado nos últimos quatro ou cinco anos tem todas as condições para se tornar um servidor de rede, o que possibilita que qualquer Pentium fabricado em 1996 possa ser utilizado como um terminal leve. Ou seja, em vez de precisar de um computador novo para cada pessoa em sua casa ou escritório e jogar fora os computadores antigos, você pode compartilhar o processamento de um computador mais novo para dar novo uso para aqueles mais velhinhos. É possível fazer isso com qualquer sistema operacional, mas a otimização de recursos é mais efetiva com o uso de software livre como o LTSP. Computadores antigos também podem funcionar como gateways e firewalls, servidores de arquivos e estações de trabalho específicas.

Alguns tutoriais e dicas sobre compartilhar o processamento de seu computador:

1.3. Descartar de maneira responsável. Mesmo que você não tenha o interesse ou a disposição de estender a vida útil de seu computador, pode imaginar que simplesmente jogá-lo no lixo é um desperdício de conhecimento aplicado. O Brasil é um país de desigualdades, e apesar de inúmeras iniciativas positivas nos últimos anos, ainda é grande a quantidade de pessoas e organizações que não tem recursos para adquirir tecnologia da informação. Existem dezenas, talvez centenas, de organizações em todo o Brasil que aceitam doações de equipamentos eletrônicos para reutilizá-los em diferentes projetos sociais, ou mesmo como fonte de recursos - uma vez triado, o lixo eletrônico pode ser revendido para empresas de reciclagem. Ou seja, muitas vezes o lixo eletrônico não é lixo. Direcioná-lo para quem precisa ajuda a estender sua vida útil, e pode ter algum efeito na redução da demanda por produção mundial. Ajude a espalhar essa idéia. Mas aí vem a grande pergunta: afinal, como eu faço isso? Como encontro entidades que recebam essas doações? Não existe uma resposta pronta. Até hoje, ninguém conseguiu desenvolver uma maneira de responder de maneira estruturada a essa questão, que cresce a cada dia. Mas vou falar mais sobre isso no próximo post, sobre descarte e reuso.

O guia How Stuff Works sobre Lixo Eletrônico fez um levantamento sobre entidades e projetos que podem receber seu lixo eletrônico, e mais algumas referências:


Leia também nesta série: 

A imagem deste post foi encontrada na galeria de kla4067 no flickr, sob uma licença Creative Commons Atribuição 2.0 Genérica.
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Gostaria de saber se alguem sabe o que é feito, produtos, eletrônicos, brinquedos etc.. com a reciclagem do lixo eletrônico ..

Retiramos e encaminhamos corretamente todo material eletrônico como computadores, impressoras, monitores, aparelhos de som, tv´s e outros
Retiramos em São Paulo e grande SP sem custo.
Atendemos qualquer quantidade e estado. Retiramos também de empresas de qualquer porte.
Emitimos certificado de destinação de resíduos.

Entre em contato :

Heitor Pinto da Luz
HEQUIPEL
heitorhequipel@hotmail.com
11-8832-7282

Felipe, salvo engano, a COMLURB não tem programa para e-lixo senão pilhas e baterias. O link da HSW não é válido para esse tipo de serviço.

Faço parte de um projeto denominado E-jovem, sou de Canindé, Ceará, e neste projeto temos que fazer uma ação social, que na qual escolhemos debater e fazer algo sobre o descarte de produtos eletrônicos, estamos ainda em fase de elaboração do projeto, por este motivo, gostaria de pedir-lhes mais informações, como por exemplo sobre pontos de coleta em nosso estado, ou em nossa região, e dentre outras, que acredito que seram de fundamental importância para o nosso projeto, gostaria de estabelecer contato.
Desde de já agradeço.
Ebson Gomes

É surprendente como nos destruimos o nosso mundo e a maioria das vezes, fazemos sem nos darmos conta do quanto somos agressivos ao nosso planeta.
Agrande sacada é exatamente termos um consumo consciente e deixarmos o egoismo de lado.

Reciclando sempre.

Poderiam enviar os índices de produção e descarte dos equipamentos acima, pois estou fazendo um estudos ACV para minha universidade.
O foco da pesquisa é disponibilizar dados e propostas de açlões para mitigar o volume de resíduos eletronicos.
Obrigado

R.R.E RENATO RECICLAGEM ELETRONICA, FALE CONOSCO

RM-SP@HOTMAIL.COM

r=eu nao achei o que eu queria eu quero acha e para a escola

Trabalho em uma escola técnica em Novo Hamburgo RS e incentivamos os alunos do curso de eletrônica a reutilizar os componentes de equipamentos danificados ou "superados". Organizamos uma clube de robótica educacional onde reutilizamos partes de equipamentos montando robozinhos. Quando uma placa eletronica "queima" normalmente são só alguns poucos componentes que sofrem danos e acaba não sendo "economicamente viável" dispor de um técnico para tentar encontrar estes componentes danificados e consertar. O que acontece então é o descarte de todo o equipamento com muitos componentes eletrônicos e mecânicos ainda bons para serem reaproveitados. Um dos caminhos , ainda que longo, é educar as novas gerações sobre a possibilidade e a necessidade da reutilização destes materiais. Estamos iniciando um trabalho de apoio técnico para escolas que queiram trabalhar com robotica educacional e utilizar sucata como material de trabalho. Ao pessoal sem conhecimento técnico existem outras formas de reciclar material eletronico. Um exemplo está no site abaixo :
http://www.lizland.com/TourGalleries.html
Atenciosamente
Roberto

Somos de uma escola do Interior e trabalhamos com cursos técnicos. Temos a 14 anos curso técnico em Informática, mas gostaríamos de fazer extenção em Robótica. Como poderiamos estabelecer parceria??? Também contamos com muitas sucatas eletrônicas acumuladas nestes 14 anos.
Aguardo retorno

José Maria Medeiros
Diretor

Entre em contato para proposta de parceria

Olá Roberto

Vocês estão documentando esses processos em algum site? Chegaste a ler meu outro post, sobre descarte e reuso? Que achas da idéia de criar um ciclo alternativo para o intercâmbio de componentes eletrônicos usados?

Excelente material, Felipe!

Com relação ao seu segundo parágrafo sobre o fato do software "forçar" o hardware a se tornar obsoleto, eu acredito que isto é uma consequência da enfâse no lado final do ciclo de produção (descarte / reciclagem / reuso), e uma falta de foco no lado inicial (design e desenvolvimento), especialmente na área de software -- onde o produto é virtual e portanto "invisível".

Há alguns anos eu desenvolvi uma metodologia para introdução de conceitos de sustentabilidade em desenvolvimento de software:

http://www.scribd.com/doc/5507536/Sustainable-Software-Engineering

Eu apliquei esta metodologia em um projeto (também documentado no link acima), mas desde então não tive mais oportunidades. Acredito que a solução é realmente uma melhor divulgação do impacto do software em sustentabilidade, e então criar alguma ferramenta que automatize este processo (mais ou menos como CO2Stats está fazendo: http://www.co2stats.com/)

Fala Albertão. É bom te ver por aqui. abs, hdhd

É, vc deve ter ficado um tempinho fazendo isso. E como tá bem legal vou deixar aqui só 2 toques sobre pequenos detalhes. Pra pensar.

O primeiro é que pode ser interessante deixar uma referenciazinha sobre alguns termos meio específicos tp 'gateways' e 'firewalls'. Isso pode preencher eventuais lacunas na comunicação já que não são poucos os leigos em informática (grupo ao qual me incluo :P).

O outro... [1.3] "imaginar que jogá-lo no lixo é um desperdício de conhecimento aplicado" é mto importante, talvez o principal ponto a ser abordado, mas é interessante tb pegar a loucura do desperdício dos recursos naturais, a tal postura predatória que vc citou antes. Bom, e já que sou bióloga mesmo (tenho a licença pra sugerir) acho q vc deve incluir um capítulo só pra esse assunto, que tal? :PP rs

É isso ae, Felipe!

Oi, Amanda

Inseri links para os termos mais específicos. E quanto ao capítulo sonre desperdício de recursos naturais, vamos montar um capítulo juntos?

Legal, valeu (links). E sobre o capítulo, eu topo. Seguimos conversando sobre isso.

Preparando o próximo post, decidi voltar aqui para inserir uma versão atualizada do diagrama que publiquei na introdução. Relendo o post, também percebi que falei muito com consumidorxs e acabei deixando de lado outros aspectos. Uma das coisas que é bom ressaltar é a  possibilidade de ações objetivas, como produção de campanhas e eventos para sensibilização e conscientização sobre a questão do lixo eletrônico, a elaboração de publicações e a conversa com a imprensa. Também não explorei muito a possível interação disso tudo com ações de educação ambiental. Fica o registro para edições futuras.